Scheila Zang

Diante de paredes cor de gelo, no sofá bordô, observo pela janela o horizonte ao longe, tomado de nuvens e relâmpagos em fúria. Penso nos dias calmos e serenos, espero pacientemente a tempestade se aproximar. No jardim, as conversas se tornam cada vez mais altas e convidativas, mas não consigo me mexer naquela direção. Os olhos vidrados nos pinheiros iluminados refletem o vazio que você deixou. Mesmo não ligando, continuo procurando respostas que sei que nunca vou ter.
Quando o vento bagunça meu cabelo, o único desejo é que ele me traga você, o teu cheiro e o som da tua risada, mas tudo que sinto são as gotas pesadas e violentas de chuva. O movimento ao meu redor aumenta, penso em fechar a janela, mas me sinto abraçada pela tempestade, que lava minhas angústias e me dá colo.
Enquanto o céu estrelado me traz recordações, a chuva me acalma e me entende. Enquanto o céu azul me traz a promessa de que tudo vai ficar bem, o céu nublado, carregado, chora junto comigo. Sempre amei dias ensolarados e brilhantes, mas é na escuridão da noite que me encontro, mesmo quando me perco, me acho e me recomponho. O céu estrelado é o meu cobertor, que me aquece e me faz companhia. Mas é quando o céu chora que eu desabafo, conto minhas mágoas e meus receios.
São dias como esse que me lembram que você é como uma tempestade, aparece quando menos se espera e se vai tão rápido quanto surgiu. Mas é como a música diz: eu tenho que aprender que todo grande amor acaba sempre assim. Como a tempestade, você também não durou muito, o relógio marca 23:23, eu desisto de esperar por um sinal teu, levanto, fecho a janela e vou dormir. Como a música também diz: você já não é mais meu bem.
Finalmente entendo, apago a luz e deixo a chuva levar todo o sentimento embora. Acordo com um céu azul e os raios de sol invadindo o quarto, trazendo novos ares, prometendo novas oportunidades e novos dias. Levanto e me entrego, recomeçando novamente, e dessa vez, realmente acredito naquela promessa.